Tenho pensado ultimamente na questão da violência. Principalmente sobre a violência urbana, mas tentando abordá-la um pouco mais além das simples constatações.
Aqui em Limeira nos últimos anos, é verdade que já não tínhamos uma situação de calmaria – como logo vem à cabeça quando pensamos numa cidade do interior – mas de um tempo pra cá a coisa piorou, ou apenas ficou mais evidente. É claro que isso não é um fenômeno localizado. E nem vou entrar na questão da “midiatização” do crime, que envolve muitas outras. Vou focar no que mais me impressiona em tudo isso: a banalidade.
Tudo tem sido muito simples: é como aquele ditado, que versa sobre como é fácil roubar um doce de uma criança. A diferença é que, se a criança não entrega o doce, ou mesmo se assusta com a abordagem, ela é assassinada. Muitas vezes com um tiro à queima-roupa, não raro direto na cabeça.
Simplicidade e facilidade: assaltos à mão armada agora são feitos de moto. A vítima é abordada, roubada, e em instantes os ladrões desaparecem. Tudo é muito prático e rápido. Não tem nem o problema do congestionamento do trânsito.
A violência também é on-line: te ligam, ameaçam seqüestrar um parente próximo, e você, coagido, compra créditos de celular pré-pago para os criminosos que muitas vezes estão dentro dos presídios. Impressionante como é fácil.
Penso, cá com meus botões, que a banalidade da violência é reflexo de várias outras banalidades.
Uma delas é a banalidade do consumo. As pessoas são bombardeadas por propaganda 24 horas por dia, e induzidas a ter o que muitas vezes não precisam. E a própria sociedade cobra isso de você, que deve trocar de carro todo ano, arrumar um bom emprego e comprar um celular último-tipo.
Como vi naquele
reality-show da televisão, em que o vencedor já sai todo formatado: cargo de executivo alto-escalão, carro zero,
notebook, celular, matrícula num curso de MBA, entre outros acessórios. E me disseram que esse venceu na vida.
Tem até gente comprando câmera fotográfica digital sem ter acesso a um computador para ver, organizar e guardar suas fotos. É que vendo a propaganda na televisão, isto parece muito simples.
Fico ainda observando algumas igrejas, que embutem na cabeça daquele pobre-coitado que não tem nem comida no prato: se ele realmente tiver fé (e pagar por este serviço espiritual prestado), vai subir na vida e Deus lhe proporcionará a bênção de ter um bom carro na garagem, uma casa espaçosa e um apartamento na praia. Impressionante como é fácil.
Não há como negar que a violência é resultado de um conjunto enorme de fatores. E para resolver esta equação complicada, não basta montar um bom aparato policial. Isso é simples demais.
Como fica a violência do mercado e da propaganda? E a violência dos padrões de conduta e consumo cobrados pela sociedade? E a violência da coação espiritual? Perto de tudo isso, a violência urbana é apenas a ponta do iceberg.
Não basta também relembrar aquele velho chavão de que a solução para estes problemas é “investir na educação”, “aumentar o emprego”, ou mesmo “acabar com a corrupção”. Velhas bobagens.
O problema é estrutural e vai muito além do que posso cogitar aqui neste breve texto-quase-desabafo. O Brasil precisa rever os seus modelos: sociais, econômicos, políticos e culturais.
Impressionante como é difícil.