O desenho de uma cidade, na cabeça de um arquiteto
Ao debruçar sobre o mapa da cidade de Limeira, o arquiteto logo percebe que não está na metrópole. Pode visualizar limites no desenho, horizontes não-urbanos através da janela do escritório.
A escala é outra. Ainda que abrigue 250.000 pessoas, esta paisagem levemente ondulada possui fronteiras nítidas. Fronteiras que não implicam maiores distâncias de outras cidades tão parecidas, elas até podem ser vistas de pontos mais altos. Ao redor, as rodovias ditam a proximidade com uma rede de cidades médias, e dão acesso a uma boa porção do país. No centro, resta a ferrovia que antes a ligava aos outros centros vizinhos, e por onde o apito do trem avisa que hoje ele está somente de passagem.
Junto da ferrovia segue o curso d’água principal, que conecta a cidade em outra rede, a Bacia do Rio Piracicaba. A água também aqui está de passagem, e leva consigo ainda uma boa dose de esgoto, em função de seu parcial tratamento.
Uma rede de outros cursos d’água menores desenha calhas que dividem a paisagem em regiões, possibilitando a visualização de umas às outras. Assim como muitas cidades, há também um bairro chamado Boa Vista, de onde se pode ver o Centro bem à frente, do outro lado do Ribeirão Tatu.
Circulando, é possível passar por todas estas regiões através do Anel Viário, projetado na década de 70 pelo arquiteto Zenon Lotufo. Esta via, que costura o tecido urbano das áreas ao redor do centro, indicou novos horizontes àquela cidade que na época estava praticamente concentrada na “calota” central. Nesse momento o país vivia o “milagre econômico”, que aqui teve reflexos: a cidade expandiu, espalhou-se e construiu seus arranha-céus, modificando a paisagem existente.
Lotufo também desenhou o edifício da rodoviária, ao lado da estação ferroviária, na parte baixa do centro. Esta proximidade já não faz muito sentido hoje, mas a estratégia da “planta livre” permite aos jovens arquitetos repensar a função daquele prédio, todo em concreto armado, naquela região degradada: um campo aberto à experimentação projetual.
Referências visuais não faltam. Apesar dos inúmeros totens, outdoors e luminosos que a todo custo teimam em raptar a atenção do observador, a chaminé em tijolos aparentes, pertencente à antiga indústria de chapéus, persiste no tempo e na paisagem. Situado na região mais alta do centro, o prédio que hoje é sede da prefeitura mantém sua imponência, marca do início da industrialização na cidade.
“Centro acima” é denominada esta região, valorizada no mercado imobiliário. Lado oposto da “baixada da estação”, vem a ser o final do percurso através do centro, entre o comércio popular e o consumo de luxo. Apesar desta constatação, a área central ainda é a principal região onde a população de todas as classes sociais faz suas compras, trabalha e utiliza-se de serviços. Sonho de muitos arquitetos, essa mistura e convivência nos ensina a resolver alguns dos problemas urbanos atuais, mas entre a prancheta e a obra ainda há muitos obstáculos.
De volta ao mapa, percorrendo o lápis em direção aos limites da cidade, distinguimos claramente grandes manchas com predominância no tamanho dos lotes. De um lado, áreas retalhadas em lotes mínimos, agrupados segundo a lógica do “quanto mais, melhor” onde estão localizados todos os empreendimentos voltados à população de baixa renda. De outro estão vastas áreas em que predominam lotes de dimensões maiores, formando bairros fechados onde terrenos e casas são vendidos pelo mote publicitário da “localização nobre”, sempre a favor da segurança.
Os limites são claros. Em Limeira, as linhas que representam muros são cada vez mais extensas, expondo os imensos abismos da sociedade contemporânea, que aqui se fazem presentes seguindo a tendência da maioria das cidades brasileiras. Estas fronteiras não são as mesmas que continuam no horizonte, vistas da janela. Elas estão bem ao lado, batem à nossa porta e mancham o desenho da cidade que tentamos esboçar.
(texto a ser publicado no boletim do IABSP, nº 53)

