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sábado, 11 de fevereiro de 2006

O desenho de uma cidade, na cabeça de um arquiteto

Ao debruçar sobre o mapa da cidade de Limeira, o arquiteto logo percebe que não está na metrópole. Pode visualizar limites no desenho, horizontes não-urbanos através da janela do escritório.

A escala é outra. Ainda que abrigue 250.000 pessoas, esta paisagem levemente ondulada possui fronteiras nítidas. Fronteiras que não implicam maiores distâncias de outras cidades tão parecidas, elas até podem ser vistas de pontos mais altos. Ao redor, as rodovias ditam a proximidade com uma rede de cidades médias, e dão acesso a uma boa porção do país. No centro, resta a ferrovia que antes a ligava aos outros centros vizinhos, e por onde o apito do trem avisa que hoje ele está somente de passagem.

Junto da ferrovia segue o curso d’água principal, que conecta a cidade em outra rede, a Bacia do Rio Piracicaba. A água também aqui está de passagem, e leva consigo ainda uma boa dose de esgoto, em função de seu parcial tratamento.

Uma rede de outros cursos d’água menores desenha calhas que dividem a paisagem em regiões, possibilitando a visualização de umas às outras. Assim como muitas cidades, há também um bairro chamado Boa Vista, de onde se pode ver o Centro bem à frente, do outro lado do Ribeirão Tatu.

Circulando, é possível passar por todas estas regiões através do Anel Viário, projetado na década de 70 pelo arquiteto Zenon Lotufo. Esta via, que costura o tecido urbano das áreas ao redor do centro, indicou novos horizontes àquela cidade que na época estava praticamente concentrada na “calota” central. Nesse momento o país vivia o “milagre econômico”, que aqui teve reflexos: a cidade expandiu, espalhou-se e construiu seus arranha-céus, modificando a paisagem existente.

Lotufo também desenhou o edifício da rodoviária, ao lado da estação ferroviária, na parte baixa do centro. Esta proximidade já não faz muito sentido hoje, mas a estratégia da “planta livre” permite aos jovens arquitetos repensar a função daquele prédio, todo em concreto armado, naquela região degradada: um campo aberto à experimentação projetual.

Referências visuais não faltam. Apesar dos inúmeros totens, outdoors e luminosos que a todo custo teimam em raptar a atenção do observador, a chaminé em tijolos aparentes, pertencente à antiga indústria de chapéus, persiste no tempo e na paisagem. Situado na região mais alta do centro, o prédio que hoje é sede da prefeitura mantém sua imponência, marca do início da industrialização na cidade.

“Centro acima” é denominada esta região, valorizada no mercado imobiliário. Lado oposto da “baixada da estação”, vem a ser o final do percurso através do centro, entre o comércio popular e o consumo de luxo. Apesar desta constatação, a área central ainda é a principal região onde a população de todas as classes sociais faz suas compras, trabalha e utiliza-se de serviços. Sonho de muitos arquitetos, essa mistura e convivência nos ensina a resolver alguns dos problemas urbanos atuais, mas entre a prancheta e a obra ainda há muitos obstáculos.

De volta ao mapa, percorrendo o lápis em direção aos limites da cidade, distinguimos claramente grandes manchas com predominância no tamanho dos lotes. De um lado, áreas retalhadas em lotes mínimos, agrupados segundo a lógica do “quanto mais, melhor” onde estão localizados todos os empreendimentos voltados à população de baixa renda. De outro estão vastas áreas em que predominam lotes de dimensões maiores, formando bairros fechados onde terrenos e casas são vendidos pelo mote publicitário da “localização nobre”, sempre a favor da segurança.

Os limites são claros. Em Limeira, as linhas que representam muros são cada vez mais extensas, expondo os imensos abismos da sociedade contemporânea, que aqui se fazem presentes seguindo a tendência da maioria das cidades brasileiras. Estas fronteiras não são as mesmas que continuam no horizonte, vistas da janela. Elas estão bem ao lado, batem à nossa porta e mancham o desenho da cidade que tentamos esboçar.

(texto a ser publicado no boletim do IABSP, nº 53)

A Gruta: um inusitado protagonista do espaço público

A cidade de Limeira situa-se a 150km de São Paulo, junto do eixo rodoviário Anhangüera / Bandeirantes, e da ferrovia antes conhecida como Companhia Paulista. Esta foi a responsável, atrelada à produção do café e da laranja, pelo seu primeiro impulso de desenvolvimento urbano ocorrido no período de transição do século XIX para o século XX.

As fazendas mais antigas situadas ao redor do núcleo urbano são hoje referências históricas da região, e formam um roteiro turístico que está começando a ser explorado. Nos cartões postais, a ênfase recai sobre estes lugares, e sobre algumas edificações de valor histórico situadas no centro da cidade.

Mas quem chega à praça Toledo Barros, principal espaço público da área central, logo se depara com um objeto inusitado. Trata-se da Gruta, cujo retrato tem lugar garantido nas estampas dos cartões postais de Limeira.

Inaugurada por volta de 1920, foi desenhada por um artista imigrante italiano, e está posicionada no centro da praça, logo à frente do Teatro Vitória, rodeada por um espelho d’água hoje desativado. Concebida inicialmente para funcionar como bar e coreto, sua construção é feita de tijolos, e revestida de pedra bruta. É possível adentrá-la, atravessando uma pequena ponte, e iniciando um breve percurso que termina num átrio cujo teto é uma abóbada de tijolos aparentes. Lateralmente, dois lances de escada se juntam em um só, sobre o arco da entrada principal, e logo acima formam um belvedere, situado sobre a abóbada, de onde se vê toda a praça e os detalhes em alto relevo da fachada art dèco do Teatro.

Nessa época, a cidade começava a experimentar seu desenvolvimento econômico, e o espaço público ganhava equipamentos, chafarizes, jardins bem-cuidados e monumentos como esse. É nesta praça que ocorria o footing, ponto de encontro de muita gente.

Não faz muito tempo, ali na Gruta ainda funcionava um pequeno barzinho. Se o local algum dia funcionou realmente como coreto, não se sabe ao certo. Pouco mais tarde, o bar é fechado, e a Gruta é reformada, perdendo seu caráter “multifuncional”: torna-se apenas um local de visitação, sem as funções originais, porém ainda persiste seu caráter de espaço lúdico.

Sem nos aprofundarmos em questões de valor estético ou de patrimônio histórico, o fato é que a Gruta é algo marcante na memória não somente de quem nasceu na cidade, mas de quem passa por aqui. A estranheza que este objeto hoje causa ao visitante é a mesma com que eu quando criança o explorava. Sua natureza artificial, a meio caminho entre um rochedo e um castelo medieval (lembranças misturadas na memória de um imigrante?) muitas vezes soa como um pastiche grosseiro, mas naquilo que tem de utilitário, a Gruta torna-se um exemplo interessante de “monumento-equipamento” do espaço público. Seu valor está relacionado ao papel de protagonista deste lugar, constituindo peça importante no imaginário urbano construído ao longo do tempo.

Apesar de sucessivos maus-tratos, a praça Toledo Barros insiste em continuar sendo o cenário da vida cotidiana da cidade. Através das várias reformas por que passou, entre diferentes adaptações e anexos construídos, ela se mostra confusa diante destas inúmeras colagens. Um sedimento cultural difuso, mas que ainda nos permite aos domingos, ver crianças subindo e descendo as escadas da Gruta, realimentando a memória de muita gente.

(texto a ser publicado no boletim do IABSP, nº 53)

Revelar uma nova cidade

A cidade se faz perceber a partir de pequenos gestos. Sair para tomar um café, parar, sentar e ouvir o vai-e-vem das pessoas. Esta pode ser a oportunidade para descobrir um horizonte além de nossas impressões mais sinceras sobre o lugar em que vivemos.
Há dificuldades nisso: durante nossos percursos diários, nem sempre a pausa para o café significa que sentimos seu sabor, ou enxergamos as pessoas ao lado. Nesses tempos acelerados nossos sentidos sofrem ataques contínuos de informação abundante, a qual nem sempre informa, mas ao contrário, faz calar. A cidade, cenário desta condição, segue ilesa apesar das queixas e dificuldades da vida cotidiana.
Um olhar atento sobre estes obstáculos revelará problemas mais profundos. Aguçar os sentidos pode ser a pá que vai remover a superfície para mostrar que ao fundo existe algo inusitado.
Um exercício é sair pela rua como estrangeiro, colocando à parte nossas memórias aqui sedimentadas. Da mesma forma que uma criança desmonta seu brinquedo para descobrir a engrenagem que o faz funcionar, é preciso ter curiosidade e sair um dia à pé, trocar o carro pela bicicleta, ou entrar num ônibus e seguir até o ponto final. Exercitar o olhar e os sentidos, observando as coisas ao redor.
Despidos de preconceitos, podemos também nos interessar pelo conteúdo das leis que fazem – ou não – com que as dificuldades encontradas nestes caminhos tenham solução. Se elas não são tão compreensíveis, desmonte-as para entender seu mecanismo. Isto pode ser a ferramenta que falta para que seu percurso seja mais agradável.
Descobrimos então que a calçada onde nossa colega tropeçou na semana passada não precisa somente de reparos. Nos questionamos se a velha lei intitulada “código de obras” ainda é suficiente para que o responsável construa adequadamente aquele trecho de espaço público.
Indo além, podemos até cogitar que seria mais interessante andar por calçadas contínuas como a rua, e não sobre uma colcha de retalhos que mostra no chão a seqüência das diferentes fachadas observadas pelo caminho.
Esta pausa para reflexão nos leva também a sentir o quanto nos agride a profusão de letreiros e outdoors na paisagem. Isso sem contar o barulho das caixas de som em frente às lojas que buscam raptar nossa atenção a qualquer custo. Imagine se conseguíssemos observar a fachada do prédio que está por trás da enorme marquise e de seu painel luminoso duas vezes maior. Poderíamos talvez descobrir um pouco da história do lugar ou do povo que o ajudou a construir.
Estas formas ocultas indicam que uma outra cidade pode reaparecer. Querendo isto, podemos tentar entender a lei que regula, ou não, toda esta parafernália que nos impede de saber o quanto as coisas mudaram desde que a cidade é cidade. Podemos também cogitar se não seria o caso de haver propaganda sim, mas de forma respeitosa e verdadeira para com as pessoas, com o meio ambiente urbano e com a nossa história.
Em Limeira, é possível que não encontremos somente uma cidade, mas várias outras escondidas atrás de nossas cortinas. A oportunidade de revisar nosso plano diretor – lei que indica as maneiras com que a cidade pode crescer e se reorganizar – é o momento de todos participarem ativamente da construção de um processo de redescoberta, superando os problemas cotidianos, os interesses escusos, os abismos sociais, e percebendo que a utopia de uma cidade gentil com seus cidadãos é realizável, basta um gesto para revelá-la.

(Artigo publicado no Jornal de Limeira, 09/02/06 )