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quarta-feira, 22 de março de 2006

O recado vem das ruas

À primeira impressão, não há nada demais em ver crescer a cada dia a aglomeração de adolescentes junto aos lugares relacionados ao consumo como o shopping center, as fast-foods, supermercados e lojas de conveniências. Acho interessante ver pessoas reunidas em determinados pontos da cidade, mesmo que nem sempre nas praças, teoricamente feitas para isso.
Passando por um destes locais, me questionei se o espaço público ao redor tem condições de receber todo este pessoal, que não cabendo nas calçadas, ocupa as ruas, os estacionamentos e os canteiros centrais das avenidas.
É fato que o público que se reúne nestes locais se diferencia dos que circulam de carro, param nas avenidas e ligam o som alto. Enquanto muitos vão à pé, outros levam suas bicicletas e skates. Outra situação, outras idades e outras tribos.
Aos poucos, essa acumulação de gente começou a gerar problema. Grade pra cá, grade pra lá e a polícia já passa mais vezes atenta a possíveis acontecimentos e desentendimentos comuns das aglomerações. “A rua é pública!”, grita um garoto com sua bicicleta no meio do caminho.
Nota-se que há um código a ser decifrado: a cidade é o caderno onde esta moçada deixa anotada uma mensagem não somente escrita pelos muros, mas expressa por meio de suas atitudes. A observação atenta destas marcas torna possível perceber que uma simples pichação também comunica algo, que por sua vez é diferente do que os grafiteiros tentam expressar. É preciso entender tudo isso antes de simplesmente defender punições ou ações remediadoras.
O consumo não é algo ao alcance de todos. É estranho ver tanta gente parada na frente de um shopping, sem entrar para gastar. Muitos dos que podem consumir se sentem acuados, pois consideram uma afronta esta molecada parada na frente dos estabelecimentos. Incômodo também para quem vende, pois espantar freguês é quebrar qualquer negócio.
Existe uma lógica: estes lugares são os ambientes onde nossos jovens podem mostrar suas caras para a sociedade. Afora os reais problemas relacionados à inconseqüência juvenil, muitos preconceitos vêm à tona. Para os mais conservadores, não custa muito pedir a “limpeza” destas áreas. Em outros termos, trata-se de expulsão. Porém, a rua é publica e já se foram os tempos do toque de recolher: a turminha continua por lá.
O recado disso tudo é que a cidade e seus espaços públicos não estão preparados para dar vazão às novas demandas culturais da população, aos gritos e desejos de cidadãos numa idade em que começam a perceber que o lugar onde vivem definitivamente não é feito para todos.
Para fechar estas feridas é preciso qualificar os bairros chamados “populares” com novos e inusitados equipamentos. É o momento de construir espaços onde se possa exercer a cidadania e afirmar identidades: mercados de trocas e de artesanato local, anfiteatros ao ar livre, locais para ensinar – e relembrar – simples ofícios. Foi a época em que dar qualidade de vida a um bairro era somente levar linhas de ônibus, construir escolas, centros esportivos e postos de saúde.
Criar novas referências, conferir personalidade aos lugares, estabelecer novos pontos de encontro a partir de outras lógicas é também entender que a inclusão social tem papel prioritário nas ações que visem reorganizar a cidade de forma justa. Traduzir as mensagens que vêm das ruas é o primeiro passo para os que se dizem interessados.


Artigo publicado no Jornal de Limeira, em 19/03/2006