Um porto para as idéias que navegam à deriva nesta mente inquieta.

domingo, 14 de maio de 2006

Um lugar para sentir saudades

Dia desses estava meio amargo com esta cidade. Refletindo sobre a questão do desenvolvimento – urbano, econômico, social – tive a sensação de que, ultimamente, isto se mede pela quantidade de distritos industriais que cada cidade constrói para si. Seria tal como uma espécie de medidor, que indica o quanto é avançada ou decadente. Breve pesadelo, logo passou quando pensei: o sucesso de um lugar se deve ao modo como o homem constrói lugares para sentir saudades.
Um pouco pessimista, talvez, mas entendi que este gosto amargo piora quando saio daqui. Não é preciso ir muito longe para perceber que uma bela cidade não se faz somente com grandes shopping centers e vários distritos industriais, mas com espaços de qualidade, que evidenciem o valor do viver em público, das coisas ao ar livre, acessíveis com os mínimos meios possíveis sem que o homem fique refém de suas máquinas.
Quando me peguei ausente, sem sentir saudades, passei a me questionar. O que estaria ocorrendo com todas as memórias e lembranças do lugar onde nasci e cresci? Imagino que só sentimos saudades das coisas que estabeleçam vínculos, a ponto de nos marcar afetivamente. Para mim, a paisagem da cidade e seus objetos construídos seriam as peças que faltavam para preencher estas lacunas.
Em outros lugares, os monumentos eram realmente obras de arte, os amplos espaços livres e públicos me faziam esquecer que eu estava numa grande cidade. Mesmo as construções em que não havia muita intenção técnica ou artística, faziam sentido no conjunto de uma rua. Assim também com as pessoas que ali viviam. Suas vidas não estavam somente ligadas ao espaço privado, mas ao viver em público. Esta face pública complementava naturalmente suas vidas íntimas.
Todas estas coisas interessantes teriam sido criadas espontaneamente? De fato não, pois a cidade é feita pelas mãos do homem. A própria comunidade é o agente da transformação da natureza em espaço habitável e os cidadãos são os verdadeiros atores neste palco, onde o tempo da peça pode variar: às vezes é mais curto, por outras prolonga-se indefinidamente.
Ciente disto, aquele estranho pessimismo tornou-se entusiasmo. Sim, é possível transformar o espaço à nossa volta, construir novas afetividades, lugares com personalidade e qualidades duráveis. Cidades que transmitam às futuras gerações verdadeiras lições de como lidar com a natureza para promover o desenvolvimento humano, lugares para sentir saudades.


Publicado no Jornal de Limeira, em 10/05/2006