Um porto para as idéias que navegam à deriva nesta mente inquieta.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

A contradição das queimadas

A temporada de outono-inverno é a época do ano que mais aprecio. O clima ameno, as noites frias e as manhãs de neblina formam o cenário perfeito para meu dia-a-dia. De incômodo, resta-me o ar seco de sempre, difícil de respirar. Como igualmente é difícil entender as contradições que envolvem a atmosfera política e econômica de nossa região.
Abrindo a janela, me vem à cabeça um divertido passatempo de infância, quando no quintal tentávamos capturar os maiores pedaços de palha de cana queimada que caíam aos montes do céu. Era uma chuva misteriosa, intrigante por ser justamente o oposto da chuva que realmente precisávamos naquele momento de seca. A ingenuidade pueril começava a dissipar-se, na tentativa de entender o que acontecia.
Hoje, dentro de um carro movido a álcool, me questiono se o plantio extensivo da cana – tida como a redenção energética do país – não poderia se conciliar com a melhoria das condições ambientais e com o desenvolvimento humano das cidades. Analisando friamente a crise que atingiu nossa atmosfera neste inverno, vejo que é preciso começar a avaliar seriamente o número de beneficiados com a queima da cana e confrontá-lo com a imensa proporção de prejudicados, que vão desde os que sofrem crises diárias de asma, até as pessoas que, sem nenhum horizonte melhor, aceitam um trabalho tão desumano e insalubre como o de cortar cana.
Parece incrível que, na busca do desenvolvimento econômico, se continue a empregar técnicas tão rudimentares como as queimadas. Desde nosso tempo de colônia, todo ano isto se repete com poucas alterações. Portanto, é urgente cobrar de nossos poderes públicos maior sensatez, no sentido de encerrar de uma vez este ciclo retrógrado e subdesenvolvido da queimada da cana.
Depois, ainda há que se rever outros usos e costumes enraizados na sociedade através de cidadãos desavisados, ou mesmo inconseqüentes. Atear fogo em qualquer coisa nesta época prejudica muita gente, mas uma campanha educativa – intensa e inteligente – poderia reverter esse processo no futuro, de forma saudável e sem traumas.
Para alcançarmos a tão sonhada qualidade de vida, hoje vendida a preço de ouro, devemos superar estas contradições, ao invés de rodar em falso dentro de nossas próprias nuvens de fumaça. Resolver esta equação é sonhar com o dia em que uma criança não veja brincadeira numa chuva de carvão, ou melhor ainda: nunca presencie algo parecido.


(publicado no Jornal de Limeira, em 16/09/2006)

O Rio Tatu

O Rio Tatu representa para Limeira o passado, o presente e o futuro. Antes mesmo de a cidade ser cidade, ele já estava ali, soberano. Ao longo destes anos, quase sempre foi tratado como um empecilho, uma barreira a ser transposta, uma calha onde se jogam os dejetos da civilização. Para ele, a cidade sempre virou a cara e torceu o nariz.
Frente ao desenvolvimento urbano, foi apenas mais um tanto de natureza a ser civilizado, encaixotado pelas mãos do homem. Ainda assim, resiste. De tempos em tempos, reaparece inundando a várzea que sempre foi sua, mostrando quem é o verdadeiro dono do pedaço.
Esperto, expõe as lacunas de uma sociedade que se pretende desenvolvida, para mostrar que o futuro está ao longo do seu leito. Otimista, sabe que o processo inverso está para acontecer: um dia a cidade inteira lhe voltará os olhos para retribuir seu devido valor. Paciente, entende que tudo tem seu tempo: por hora, mantém seu percurso firme e perseverante.

(publicado no Jornal de Limeira em 15/09/2006, por ocasião do aniversário da cidade - 180 anos)