Transporte público: uma questão de gentileza
Caminhando pelo centro da cidade, dia destes, reparei numa senhora franzina, cabelos completamente brancos e bem penteados, vestido florido, aparência frágil, porém de uma força de vontade que me pôs a pensar. Num instante, avistou o ônibus que vinha apressado – seus novos óculos estavam valendo a pena – levantou-se do banquinho, alguns passos e já estava na fila que descia a sarjeta e continuava uns dois metros pelo asfalto até a porta do veículo.
Tentei, num golpe de vista, medir a altura da rua até o primeiro degrau. Tinha algo em torno de dois palmos, quarenta centímetros. O motorista teve boa vontade: pediu paciência aos demais e, de pronto, um rapaz pegou-a pela mão acompanhando-a até o assento reservado. No fim da fila, outra mulher comentava que aquela cena era inédita, pois na pressa de cumprir seus apertados horários, muitos motoristas não tinham esse trato, já que atrasar o itinerário – mesmo que por motivo de gentileza – implicava em muita cobrança lá na garagem.
Admirei a vontade daquela senhora, disposta a enfrentar aquele desumano degrau, algo impensável até na mais rude construção. Desumano também era descer da sarjeta para subir no ônibus em plena rua. Desumano era aquele abrigo onde ela estava, que comportava somente o nome e mais nada. Desumano era acidentar-se dentro do veículo, caindo do assento numa curva mais rápida. Fiquei pasmo quando soube que isso é muito comum, é só perguntar para algum idoso que usa ônibus nesta cidade.
No momento em que o sistema de transporte público de Limeira expõe mais uma vez suas crises estruturais, é hora de parar e repensar tudo. Porém, repensar não é dizer, há dois anos, que estão sendo feitos testes nas linhas, que teremos uma nova linha aqui e outra acolá, que vai ter integração, que um novo modelo de sistema está quase pronto e será apresentado em breve. Até agora ninguém viu nada, e provavelmente não verá antes de entrar em funcionamento, caso nossa atual administração continue a usar o velho expediente do “regime de urgência” ou da temível “urgência especial” para aprovar esta nova lei.
Para repensar um sistema desta importância, é preciso primeiro ter um projeto para a cidade. Um projeto inteligente, aberto, democrático, para então desenhar um novo modelo de transporte público que solucione as diversas interferências dos ônibus com o meio-ambiente, com o trânsito, as ruas, as praças, as calçadas, as sarjetas, os pontos de parada, os abrigos e enfim, as pessoas. Para estas, basta uma boa dose de gentileza.


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