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sexta-feira, 2 de março de 2007

O mapa e suas rasuras

Percebi, há alguns anos, que eu tinha um certo gosto por mapas. Para o curioso, é sempre bom desenrolar o papel, esticar na mesa e desdobrar a imaginação através do desenho da cidade, como quem vê de cima, sobrevoando. Tanto é que decidi colecionar estes mapas, dos mais diversos tipos, sem distinção: desde os mais técnicos e precisos, até aqueles turísticos, dobrados, com os desenhos das atrações de cada lugar e cheios de anúncios.
São interessantes, por exemplo, os mapas que mostram o território das cidades, onde é possível ver o tanto de terra urbanizada em relação ao outro tanto de área rural. Podemos ver o avanço dos contornos da “mancha urbana” sobre o campo, através das linhas que mostram os antigos caminhos do centro até as cidades vizinhas. Junto com as linhas dos rios, da linha férrea, do relevo, elas nos indicam a estrutura de desenho de cada lugar.
Conseguimos então compreender o sentido da cidade: um lugar onde a gente se aglomera para compartilhar o mesmo espaço, as mesmas facilidades e benefícios. Tudo fica perto para abastecer a casa, vender produtos, consertar um sapato ou procurar um médico. Neste sentido, compartilhamos também a mesma infra-estrutura, uma rede de dutos que não aparece nos mapas mais simples, mas dá suporte aos benefícios da vida no local, fornecendo água, energia. Isso tudo custa dinheiro público, que vem do bolso de quem compartilha essas redes.
Sendo assim, as cidades precisam ser planejadas para alcançar seu verdadeiro sentido. Por falta disso, compartilhamos inúmeros problemas urbanos. É preciso planejar para colocar cada atividade – moradia, trabalho, lazer, etc – no seu devido local, combinadas entre si ou não, conforme o incômodo. Planejar para tirar o máximo proveito da infra-estrutura e demais equipamentos públicos, em benefício de toda a sociedade.
No caso de Limeira, com as alterações recentes na lei de uso e ocupação do solo, promovidas pela atual administração, toda esta idéia de planejamento foi deturpada em nome de um pretenso “desenvolvimento”, que se mostra insustentável. Ao longo de várias estradas rurais, portanto fora da área urbana e sem infra-estrutura, tornou-se possível instalar indústrias de todos os tipos, abrindo brechas para induzir o espalhamento da cidade, aumentar a especulação imobiliária e ainda desestimular o uso agrícola destas áreas.
Ainda é possível reverter este absurdo, ou talvez remediá-lo. Estamos próximos das audiências finais do processo de revisão de nosso plano diretor, onde a população precisa estar informada, questionar e não aceitar este equívoco. Caso contrário, de volta aos mapas, o desenho corre o risco de ficar marcado com enormes rasuras.

1 Comments:

Blogger Biajoni said...

eu gosto especialmente de mapas de lugares imaginários.
:>)

12:41 AM

 

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