Casas com nome e sobrenome
Terça-feira, cinco da tarde, favela do Valo Verde. Chove torrencialmente na beirada da periferia da região metropolitana de São Paulo, enquanto acontece mais uma reunião com moradores, para tratar do andamento das obras.
Ouço o relato de uma mulher, que há doze anos vive alí e acompanhou toda a transformação do lugar. Ela conta que as pessoas chegaram, construíram seus barracos e ao longo do tempo todo mundo se virava como podia para escapar das enchentes, dos ratos, das doenças. Quando o governo chegou, começaram as obras de saneamento, a construção das casas. A sua viela agora tem CEP, iluminação, rede de água e esgoto, seu barraco tem um número. Ainda há muito o que fazer, mas para ela, a vida ganhou um pouco de dignidade, mesmo antes de mudar para seu novo lar.
O papo estava bom, mas agora era hora dela escolher sua futura vizinhança. Alí não tem essa coisa de sorteio, anônima, impessoal. Durante as obras, as futuras casas não têm código, têm nomes. Assim, a turma se entendeu e cada um ficou do lado de quem tinha alguma afinidade. Quem gostava de som alto botaram lá no fim, as comadres ficaram lado a lado.
“Conversando é que a gente se entende”, me disse uma senhora animada, que aproveitou para me alfinetar, cobrando o prazo de entrega. Ela precisava de uma definição, pois estava juntando um dinheirinho para comprar o piso do banheiro, que seu filho, pedreiro caprichoso, tinha prometido assentar num final de semana. Pediu também para eu não instalar a pia da cozinha, já que ela ganhou um gabinete novo, completo, de inox. Prontamente, anotei no projeto: “casa da dona Adelina, sem pia”.
Aqui tem gente que nem sabe o que é morar em uma casa ou usar um banheiro, já que morou a vida inteira num barraco, muitas vezes rodeado de lixo por todos os lados. Nestas condições, o enfrentamento do déficit habitacional também é oportunidade de integrar políticas sociais, de saúde pública, educação ambiental.
Ao contrário, em muitas cidades – e Limeira não foge à regra – as políticas de habitação social ainda se traduzem na velha fórmula simplista de fornecimento de “lotes populares” ou apartamentos confinados. Mutirão, para muitos governos, ainda rima com palavrão, ou sinônimo de “se vira aí”.
Frente à urgência do problema da moradia, em muitos lugares as políticas habitacionais ainda são capitaneadas por pessoas desqualificadas que, do alto de seus home sweet home, jamais conhecerão de perto o problema, sequer saberão o nome de algum morador. Esquecem que estamos tratando com gente, e gente não é gado.


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